Em sua segunda edição, o Seminário Nacional de História e Contemporaneidades traz para o debate os desafios de refletirmos o passado, a produção do conhecimento histórico e o ensino em meio à profusão de ações extremadas no presente. A eclosão de conflitos armados em várias partes do mundo, atentados, divergências étnicas e religiosas, nacionalismos exacerbados, perseguições associadas às diferenças de gênero e a práticas culturais e a destruição ambiental parecem nos colocar diante do que Edgar Morin conceitua como uma “crise do futuro”. Tais aspectos trouxeram à tona atitudes e radicalismos que pareciam superados, o que tem manifestado um crescente sentimento de precariedade social e humana, reforçado pelas graves condições de desigualdade e exclusão de milhões de pessoas em várias partes de globo.

Uma “era de extremos”, como definiu no final do século XX o historiador Eric Hobsbawm, resultado de um processo de profundas transformações que ainda estão em curso. Para o sociólogo Zygmunt Bauman, o momento de uma revolução que nós, contemporâneos, ainda não conseguimos dimensionar em sua complexidade. Não há como negar um elemento fundamental nesse cenário: o processo de globalização tornou-se um aspecto indelével em nosso dia-a-dia. A circulação de conteúdos, culturas e pessoas pelo globo aprofundou um mercado de trocas simbólicas jamais visto pela humanidade.

Como resultado disso estabeleceu-se um acelerado processo de fragmentação social que tem nos levado a novas formas de construção de identidades que são marcadas pelo imediatismo das relações ou, por outro caminho, pela busca de elos que são articulados a partir de preceitos nacionalistas e religiosos extremamente conservadores.

Se para Norbert Elias, o “Processo Civilizador” foi descrito como um movimento que disciplinou as sociedades ocidentais a lidarem com a falta, a controlarem suas pulsões em nome do espaço do indivíduo e das coletividades, na atualidade, os intensos processos de imigração, o aumento de grandes zonas de exclusão econômicas e os massacres contemporâneos perpetrados por grupos radicais e criminosos, como assistido em 2014 no México quando 43 jovens foram assinados por narcotraficantes a mando das autoridades locais, nos desafiam a administrar o excesso, o consumo irrefletido, o combate à discriminação e a violência cada vez mais presentes em nosso cotidiano.

A cada ano, países como EUA e os membros da Comunidade Europeia gastam bilhões de dólares no patrulhamento de suas fronteiras para evitar que imigrantes pobres da América, Ásia e África cruzem seus territórios. Mesmo quando conseguem, estes enfrentam barreiras cruéis nesses países, ficando relegados a guetos constituídos em espaços de subdesenvolvimento nas grandes metrópoles. Como afirma Canclini, “a guerra mundializada que os governantes, a mídia e os cidadãos estadunidenses descobriram em 11 de setembro havia começado anos antes em seus bombardeios a africanos, asiáticos, nas ditaduras da América Latina, na globalização narcoeconômica da Colômbia”.

No Brasil, os anos de 2013 e 2014 foram marcados pela eclosão de grandes manifestações sociais que trouxeram à tona problemas de desigualdade de renda, corrupção e má gestão pública. Por outro lado, descortinou profundas diferenças regionais, preconceitos e radicalismos políticos que demonstraram as fissuras de um país que vivia sob a fachada de uma presumível sociedade da tolerância.  As divergências de interesses e prioridades entre as classes sociais foram desveladas em meio aos debates aguerridos impulsionados pelo processo eleitoral para presidente, quando a bipolarização política e as rivalidades assumiram a tônica do debate político. Em meio a tais problemas, ressalta-se o papel dos meios de comunicação e das grandes corporações em suas tentativas de controle e manipulação da informação.

O desespero, a fome e o medo que impulsionam ações de grupos extremados são também aspectos de uma globalização perversa, como ressaltou Milton Santos, marcada pela técnica e pelo poder dos meios de comunicação que ajudam a fabricar a fábula de uma democracia global, conceito há muito esvaziado de um sentido social e ético mais amplo.

Deste modo, a emergência de atitudes que pareciam encerradas em épocas anteriores colocam-nos desafios tenazes, uma vez que não apenas convivemos com extremos políticos, mas também sociais. Desafiam-nos a refletirmos sobre o papel do saber histórico no mundo contemporâneo. Interrogarmos em que medida o ensino sobre o passado pode servir como importante aporte para superação de desigualdades e radicalismos trazendo para primeiro plano o exercício de uma cidadania participativa e reflexiva. Como a compreensão do passado pode nos auxiliar a pensarmos sobre diferenças e desigualdades em vários tempos históricos?

Ao pontuarmos essas questões, o Laboratório de Imagem, História e Memória (LABIHM), juntamente com os Cursos de História da Universidade Regional do Cariri (URCA) e da Universidade Federal do Cariri (UFCA) e o PIBID de História da URCA pretendem fomentar a discussão de problemas contemporâneos sobre as apropriações do passado em meio a um processo tão dramático de transformações. Dessa maneira, apresentamos a proposta de realização do II Seminário Nacional História e Contemporaneidades cujo tema será: “Pensar o passado em tempo de extremismos e exclusões”, tendo como objetivo as reflexões sobre os problemas atuais que envolvem o campo da história e sua interação com outras áreas do conhecimento e as demandas de nossa sociedade. Propomos um debate transdisciplinar que seja capaz de fomentar discussões sobre os usos do passado como projeto para o futuro, os desafios do ensino na superação de posturas extremadas e processos de exclusão, assim como problematizar o papel do conhecimento histórico articulado a outros campos do saber.

 

 

Sônia Meneses

Coordenação Geral do Evento

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